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Ubirajara Rabello
Inspetor de metodologia
FBAC


Meu nome é Ubirajara Afonso Rabello e sou considerado como uma “lenda” do método APAC. Fui um dos primeiros condenados a cumprirem pena na APAC. Ao lado de Mário Ottoboni, consegui vencer a criminalidade e hoje luto para que outras pessoas também sigam um bom caminho.

 

Nasci em São Paulo, no dia 2 de agosto de 1949, cresci em meio a uma família muito humilde, que me proporcionou muito amor e carinho. Minha mãe sempre batalhou contra a pobreza, e eu e meus irmãos começamos a trabalhar ainda crianças.

 

Vivi em bairros onde a criminalidade era constante, mas nunca pensei que me perderia nesse caminho devido à luta e honestidade de minha família.

 

No cenário cultural dos anos 60 e 70, o uso da maconha se tornou popular devido a manifestações musicais e conceituais do momento. Ao entrar em contato com pessoas envolvidas no mundo do crime, me vi em um primeiro momento a utilizar a maconha e logo então drogas mais pesadas.

 

Comecei ainda menor de idade a enfrentar caminhos tortos. Depois de me envolver no mundo das drogas, comecei a realizar pequenos furtos para sustentar o vício. Logo, começaram os “serviços” e a “carreira” de maiores furtos.

 

Com 20 anos de idade, fui preso em flagrante e cumpri pena no Presídio do Carandiru, em São Paulo. Nas prisões, além de sofrer com a péssima infraestrutura, sofri torturas. No momento, os Direitos Humanos não tinham força no sistema penitenciário.

 

Não existiam programas de trabalho dentro da prisão para reduzir a pena e tampouco estudos. A sentença dada era a sentença que o preso deveria cumprir.  A esperança era sempre esperar pela condicional. Através disso, saí e voltei da prisão várias vezes.

 

Em minha última prisão na capital paulista, sai torturado, humilhado e depressivo. Minha família tinha a esperança de que eu mudasse de vida. Minha mãe indicou, então, que eu me mudasse para São José dos Campos para começar uma nova vida, junto a meu irmão, que tinha acabado de conseguir um emprego.

 

Foi uma questão de tempo para que eu me envolvesse com a criminalidade, também nessa cidade. Em 1973, fui preso mais uma vez no Presídio da Humaitá, onde cumpri também a pena por outros crimes realizados em São Paulo.  Nesse momento, minha família já havia desistido de que eu me tornasse uma pessoa melhor.

 

Foi no Presídio da Humaitá que nasceu a APAC. Mário Ottoboni, junto a outros voluntários da Igreja Católica, participavam ativamente da vida do presídio tradicional, buscando sempre orientar e ajudar os condenados. Durante dois anos, ignorei o grupo de voluntários e seus ensinamentos.  Até que por um momento, me senti engajado e mobilizado pelo grupo e comecei a abraçar a causa.

 

A espiritualidade ensinada pelo grupo de Mario Ottoboni foi o pilar para que eu mudasse de postura. Encontrei na fé, a cura. Além disso, um ponto forte para mim foi observar o trabalho dos voluntários, que trabalhavam em outros empregos o dia todo e em seus tempos livres estavam ali acreditando na mudança dos presidiários.

 

O presídio não tinha infraestrutura para palestras, muito menos para estudos e para trabalho, mesmo assim os voluntários conseguiram construir a APAC a partir dos princípios propostos ali dentro. O presídio funcionou como uma espécie de laboratório do que é hoje a atual metodologia.

 

Nesse primeiro momento, a APAC não tinha funcionários. Trabalhavam somente voluntários dentro do presídio. Até quando um juiz local, doutor Silva, resolveu apoiar a causa de Mario Ottoboni, dando-lhe liberdade e força para seu trabalho. A partir disso, foi construído o regime semiaberto, pouco tempo depois.

 

Fui um dos contemplados, depois de 3 anos no presídio, a cumprir pena no novo regime semiaberto da APAC. Nesse momento, a partir de conselhos de Mario Ottoboni, os presos começaram a ter consciência e se organizaram para cuidar da APAC. Eu me tornei o primeiro presidente do Conselho de Sinceridade e Solidariedade (CSS) e lutei bravamente para manter e zelar pela metodologia APAC.

 

Com a APAC, consegui me reunir novamente com minha família. Foi na APAC também, que me casei e comecei a constituir uma família. Quando cumpri minha pena, continuei trabalhando na APAC como voluntário, pois acreditava e ainda acredito no método para a mudança da vida dos condenados, assim como aconteceu comigo. Com o fechamento da APAC de São José dos Campos, fui convidado por Valdeci Ferreira, presidente-executivo da FBAC, a trabalhar em Itaúna (Minas Gerais) e até hoje permaneço na cidade.

 

Hoje tenho 67 anos e sou inspetor de metodologia da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC). Tenho muito orgulho de ser pioneiro da metodologia APAC.  Como inspetor, tenho o dom de dar forças para ajudar as pessoas a seguir a metodologia e encontrar o caminho do bem.

 

 

*A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) conta com o suporte da AVSI Brasil para expansão da metodologia na América Latina por meio de projetos com financiamento da União Europeia.


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