AVSI COMUNICA /
Roberto Carlos
Recuperando
APAC


 

Nasci no interior do Mato Grosso e sou filho de agricultores que lutaram bravamente para dar uma educação digna a mim e aos meus três irmãos. Aos 12 anos, minha mãe faleceu, vítima de um câncer. Após o ocorrido, perdi o chão e me tornei um adolescente rebelde. Pouco depois, minha família se mudou para a cidade grande com o objetivo de ter uma vida melhor, porém, eu sempre contrariava meu pai nessa época e desisti de estudar.  

 

Aos 17 anos, junto a supostos amigos, participei de um roubo e fiquei preso durante uma semana. A partir desse momento, percebi que não tinha instinto para ser bandido e decidi ir para Rondônia, trabalhar com meu irmão que vivia lá, em uma oficina mecânica, onde permaneci por muitos anos.

 

Durante o tempo em que trabalhei como mecânico, tive uma vida estável. Tinha carro, casa, ganhava bem e comecei a constituir uma família. Entretanto, conheci pessoas que me apresentaram as possibilidades do tráfico de drogas, onde eu ganharia o triplo do meu salário mensalmente, de forma atratativamente mais fácil.

 

Por isso, me deixei levar pela ganância e comecei a levar drogas de Ji-Paraná para o Rio de Janeiro em meu carro. Não tardou muito para que eu fosse preso pela Polícia Federal e condenado a 26 anos e 5 meses e 20 dias  de prisão por tráfico de drogas internacional.

 

No momento em que fui preso, caiu a ficha de que eu havia deixado uma filha de apenas 10 meses de vida para trás, além da minha esposa e meu pai. Após 6 meses em uma penitenciária em Juiz de Fora, Minas Gerais, fui transferido para o interior do estado, em São João Del Rei, mesmo não possuindo nenhum vínculo com a cidade.

 

Além de sofrer as dificuldades do presídio, sofri a dor do abandono, da saudade da família e a morte do meu pai. O fato de não poder ver minha filha crescer era um de meus maiores sofrimentos. Apesar de o presídio ter sido para mim um inferno, resolvi manter um bom comportamento, não me envolvendo em brigas ou confusões.

 

Após 3 anos e 8 meses, o diretor do presídio escreveu um ofício para o juiz responsável pela execução do meu processo em São João Del Rei, a fim de me transferir para a APAC de lá. Por ser um crime federal, houve a presença de muitas barreiras para a minha transferência, mas por fim, o pedido foi deferido.

 

Ir para a APAC foi como “sair do inferno e cair no céu”. Lá, fui recepcionado muito bem. Eu não conseguia nem diferenciar funcionários de presos, lá chamados de “recuperandos”. Fui surpreendido ao ver os recuperandos bem vestidos e com barba e cabelos feitos. Antes, eu pensava que APAC era apenas uma forma mais fácil de cumprir a pena, mas logo vi que era bem mais isso. Aos poucos, fui compreendendo a metodologia, os propósitos de mudança e a recuperação de pessoas.

 

Com apenas2 meses cumprindo pena na APAC, me impressionei de verdade quando colocaram a chave do presídio em minhas mãos. Nesse período, comecei a trabalhar como auxiliar de plantonista, cargo que mantive por um ano.  

 

Tive muitas oportunidades dentro da APAC e sou muito grato por todas elas: fiz um curso de padeiro, no qual fiquei colocado em segundo lugar e fiz um curso de mecânica, onde ganhei o primeiro lugar. Essa vitória, geralmente parabeniza os recuperandos vencedores com dois dias fora da prisão. No meu caso, porém, como eu não tinha família em São João Del Rei, ficou acordado que eu ganharia somente uma medalha. Mas, para a minha surpresa, devido à confiança do presidente e dos funcionários da APAC, que se voluntariaram para me receber em casa, o juiz executor do processo se mobilizou e decidiu me presentear com uma passagem de ida e volta para Rondônia, onde pude visitar meus familiares.

 

A viagem presenteada não é uma medida comum de nenhum sistema prisional brasileiro e simbolizou um ato de amizade. De acordo com a lei, eu não realizaria essa viagem, mas o poder judiciário me concedeu essa oportunidade como um voto de confiança.

 

Com toda a alegria do mundo, eu viajei e fui recebido calorosamente por meus amigos e familiares. Minha filha, já com 6 anos, pulou em meus braços, mas logo percebi que ainda teria que conquistar o seu carinho e confiança. Percebi que tinha que cumprir a pena dignamente para poder ter forças de reconstituir minha família. Apesar de algumas más influencias que me incentivarem a não retornar a São João Del, eu voltei com mais forças ainda para me dedicar à APAC e cumprir minha pena de forma íntegra.

 

Após o acontecido, a promotora do Estado de Rondônia, Dra. Eiko, ficou sabendo da minha trajetória me convidou para terminar de cumprir pena em Ji-Paraná-RO, para que eu pudesse auxiliar na implantação da metodologia por lá.

 

Desde que cheguei em Ji-Paraná, comecei um árduo trabalho dentro do presídio Agenor Martin, com o intuito de levar a metodologia apaqueana aos condenados. Em seguida, demos início à obra da APAC, que durou mais de 9 meses. Durante todo esse período, 14 presos do regime fechado auxiliaram na construção, sem que houvesse qualquer tentativa de fuga por parte deles.

 

Após a inauguração do Centro de Reintegração Social, assumi o posto de encarregado da segurança e passei também a realizar viagens para outras comarcas da região à fim de auxiliar na implantação da metodologia para as novas APACs.

 

Consegui conquistar o amor da minha filha, que já me chama de papai, e estou prestes a ganhar minha condicional. Por isso, agradeço aos anjos que Deus colocou em minha vida, o Dr.Ernani, Dr.Fantine, a Dra.Eiko, ao Fuzatto e a todos que acreditaram e confiaram em mim.

 

É uma grande responsabilidade e também uma honra para mim poder ajudar na causa, perto de minha família, e é com muito orgulho digo que o sangue APAC corre em minhas veias e que estou dedicando minha vida para recuperar essas pessoas, desacreditadas pela sociedade.

 

 

 


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